Reportagem na Revista InVerso

HERMETO PASCOAL E ALINE MORENA
Magia do som

O instrumentista e compositor Hermeto Pascoal é chamado por muitos de o Bruxo, por fazer uma música indefinível e inventiva, através da improvisação de sons e instrumentos. Músico e multi-instrumentista: toca acordeão, flauta, piano, saxofone e sintetizador, e quaisquer outros objetos em suas músicas, tocando em bacias d’água, apitos, garrafas, brinquedos de plástico, e até mesmo animais.

O talento múltiplo de Hermeto Pascoal para tirar som de pedras vem da infância em Arapiraca, interior de Alagoas. Quando menino descobriu a grandeza da música tocando seus primeiros instrumentos: gravetos, barras de ferro, água, canto dos pássaros, e qualquer material que emite ruído interessante. Hoje aos 69 anos, Hermeto confessa que se sente uma criança cada vez que sobe ao palco. Com um jeito próprio, o músico segue cativando platéias por todos os palcos que passa.

Aline Morena, gaúcha de Erechim, Rio Grande do Sul. Estuda música desde os 10 anos de idade, cantou, tocou, foi professora de musicalização, ainda em Erechim. Deu aulas particulares de canto e de danças “gaúchas” de salão. Musicou poesias de Mário Quintana, Cecília Meireles e Carlos Drumond de Andrade. Após já haver realizado o show “Hermeto em Voz para Dançar”, em Curitiba, em agosto de 2002, Aline Morena decidiu dedicar-se exclusivamente às obras de Hermeto Pascoal e acabou conhecendo-o em um workshop em Londrina. Lá, cantou “Montreux” com Hermeto no teclado e, no dia seguinte, ele próprio convidou-a a “dar uma canja” no show do seu Grupo em Maringá. Desde então, não se desgrudam mais e, em todos os seus shows solo e com o Grupo, Aline Morena passou a participar como convidada. A partir daí, Hermeto começou a ensiná-la novas noções de canto, piano, viola caipira, percussão e dança. E assim formaram um repertório de mais de 40 músicas, surgindo a dupla “Chimarrão com Rapadura”. O encontro criou um novo duo nos palcos e na vida, os dois se casaram e Hermeto mudou-se para Curitiba.

A revista bateu um papo com eles sobre a música de raiz e sobre este encontrando.

R.I – Nesta edição da revista InVerso, trazemos uma matéria sobre a música de raiz, aprofundando-se um pouco sobre a música e músicos do sul. Você (Hermeto) como músico, com toda a bagagem que possui, como vê esta música feita aqui, pelo interior de nossos estados? Ela ainda existe?

Hermeto - Agora que estou com a Aline, eu estou conhecendo mais a música do Rio Grande principalmente. Mas também um pouco daqui do Paraná. O que eu acho é que a musica deve acompanhara evolução dos tempos. As melodias são bonitas, mas a roupagem harmônica e rítmica continuam quadradas. É como uma pessoa bonita que se veste mal.

R.I – No Rio Grande do Sul, música tem todo um diferencial. Como vocês classificariam essa música no interior do Paraná e Santa Catarina?

Hermeto – A música é como sotaque. Cada estado tem a sua maneira de tocar, embora hajam muitas semelhanças.

R.I – Aline, fale um pouco desta música de raiz no RS.

Aline – O que é bonito no Rio Grande do Sul é que em quase todo lugar você vai por lá, você ainda ouve essa música em rádios, nas residências ns fins de semana, até em lojas. As letras dessas músicas demonstram o amor que o gaúcho tem pelos seus costumes, pela sua terra. E há muitas letras de gozação, tirando sarro de si próprios ou contando vantagens. Esse tom de brincadeira sempre esteve presente nas letras do Rio Grande, você vai notar que levaram junto os seus costumes, inclusive a música. Até aí, tudo bem. Agora, é necessário apenas que os músicos gaúchos (e muitos já o estão fazendo) ofereçam para “todos”, músicas ritmicamente e harmonicamente também com umas pitadas de mais bom gosto, sem que ela perca a singeleza que lhe é característica. A nossa música é uma mistura nossa com os nossos colonizadores vizinhos. Nada é puramente gaúcho, nem os próprios gaúchos. Aí, será muito mais prazeroso dançar e, ouvir então, nem se fala! E os outros estados também vão gostar mais, porque nós vamos nos unir e nos enriquecer cada vez mais.

R.I. – Falem um pouco desta mistura de som instrumental do note com o som gaúcho (Chimarrão com Rapadura).

Hermeto e Aline – Nós só percebemos ainda mais que o sul e o nordeste têm muitas semelhanças. Até a sanfona ou a gaita são importantíssimas nas duas regiões. Então, a mistura é inevitável e muito enriquecedora.

R.I. - Falem um pouco desta parceria e dos trabalhos que estão realizando.

Hermeto e Aline – Estamos muito felizes. A nossa conveniência, o nosso amor e o nosso som são experiências abençoadas. Eu aprendo muito mais com o Hermeto, em todos os sentidos, embora insista que também aprende comigo. Percebo que o que realmente dou para ele, além de muito amor, atenção e carinho, é o resultado do meu aprendizado musical e a minha família, que ele ama tanto. Em quase três anos que estamos juntos, além de formarmos um casal muito feliz e nos mudamos para Curitiba, formamos também um duo maravilhoso, estamos realizando o show “O Som Nosso de Cada Um” e no fim do ano lançaremos o DVD dessa dupla “Chimarrão com Rapadura”.

R.I. - O Hermeto está morando em Curitiba. Porque veio para cá? E como esta sendo Curitiba para você?

Hermeto – Eu vim para Curitiba porque aqui no Paraná, em Londrina, encontrei uma morena gaúcha de Erechim. E esta sereia se chama Aline Morena. A Aline já morava em Curitiba. A cidade é maravilhosa para se viver! Sempre gostei daqui e já toquei muito por aqui, principalmente no Teatro Paiol, pelo qual tenho muito carinho. Gosto do clima da cidade, que é muito parecido com a Música Universal, muda toda hora. O povo é maravilhoso! Sempre me cumprimentando e me chamando de Papai Noel.

R.I. – E, Aline que também não é daqui, mas sendo gaúcha a diferença é menor. Como vê Curitiba?

Aline – Curitiba é a melhor cidade para se viver no momento. Foi uma idéia iluminada ter vindo para cá. E Curitiba já esta marcada para mim para sempre como a cidade onde meus maiores sonhos estão se realizando!

Marilucia R. Gonçalves
Jornalista